sábado, 3 de novembro de 2012

Desacoplamento de neurônios pode ser estratégia de neuroproteção

Posted: 26 Sep 2012 02:06 PM PDT
Experimento feito na UFABC mostra que é possível deter o espalhamento da morte celular a partir da reversão do acoplamento entre as células nervosas, que normalmente é responsável pelas sinapses elétricas

Agência FAPESP – Além das conhecidas sinapses químicas – que permitem a interação entre as células nervosas, envolvendo neurotransmissores e receptores –, os neurônios também se comunicam com sinapses elétricas. Nesse tipo de sinapse, correntes de íons passam diretamente de uma célula a outra por meio de canais conhecidos como “junções comunicantes”, produzindo um acoplamento entre os neurônios.
Uma pesquisa realizada por pesquisadores brasileiros mostrou que desacoplar os neurônios pode ser uma estratégia simples e eficaz para a neuroproteção – isto é, interromper processos de morte celular relacionados a doenças neurodegenerativas como Parkinson, Alzheimer e epilepsia.
O estudo, publicado na revista PLoS One, foi liderado pelo professor Alexandre Kihara, coordenador da pós-graduação em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC). O trabalho foi realizado com apoio da FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.
Além de Kihara, participaram da pesquisa seus orientandos de doutorado Vera Paschon e Guilherme Higa – ambos bolsistas da FAPESP –, além dos professores Luiz Roberto Britto, do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), e Rodrigo Resende, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Segundo Kihara, embora sejam historicamente menos estudadas que as sinapses químicas, sabe-se hoje que as sinapses elétricas são fundamentais em diversas funções fisiológicas e cognitivas, como desenvolvimento, aprendizado, memória e percepção. Estudos recentes têm mostrado, também, que a participação das junções comunicantes no acoplamento entre os neurônios está relacionada com o espalhamento da apoptose, ou morte celular.
“Na apoptose, que é um processo comum a todas as doenças neurodegenerativas, o neurônio altera sua programação interna para ‘se suicidar’. Ocorre que, se um neurônio em apoptose estiver acoplado com um neurônio sadio – como mostra nosso estudo –, esse acoplamento permite a passagem de determinadas moléculas que aumentam a probabilidade de o neurônio sadio entrar em apoptose também”, disse Kihara à Agência FAPESP.
Segundo Kihara, no entanto, os cientistas ainda estão investigando quais são as moléculas envolvidas no espalhamento da apoptose por meio do acoplamento entre os neurônios. Além de tradicionais segundos mensageiros – como IP3, um importante sinalizador de cálcio – , o grupo da UFABC levanta a hipótese de que os microRNAs (miRNAs) podem estar envolvidos no processo.
“Os miRNAs regulam negativamente a tradução e representam uma camada adicional de controle entre o RNAm e as proteínas. A proposta de que miRNAs possam trafegar por junções comunicantes é considerada muito ousada. No entanto, ninguém conseguiu levantar argumentos concretos contra a hipótese, enquanto nós já temos alguns indícios a favor”, disse Kihara.
Para que ocorra um trânsito de moléculas entre as células, não basta que elas estejam acopladas. É preciso também que existam gradientes – isto é, que um dos neurônios acoplados tenha uma concentração de moléculas maior que o outro. Sendo assim, os pesquisadores usaram a estratégia de gerar gradientes a partir de lesões feitas com agulhas finíssimas nas retinas de galos.
A lesão era focada o suficiente para produzir a morte celular em um ponto específico do tecido, sem afetar o entorno, gerando um gradiente. Esse acoplamento foi manipulado farmacologicamente com diversas drogas. Quando os fármacos desacoplavam os neurônios, os pesquisadores observaram uma redução do espalhamento da morte celular.
“A estratégia foi produzir uma lesão aguda e localizada, com o intuito de gerar gradientes de concentração no tecido, para em seguida desacoplar bioquimicamente os neurônios. Para isso, uma dupla abordagem foi realizada, combinando lesões de retina in vivo e explantes de retina, modelo in vitro, mais adequado que as tradicionais culturas de células”, explicou Kihara.

Aplicação potencial
A estratégia de neuroproteção utilizando diferentes moléculas que desacoplam neurônios foi também capaz de regular negativamente genes pró-apoptóticos como as caspases. “A estratégia se mostrou tão eficiente que foi reproduzida in vivo, resultando em diminuição da área afetada e da morte neuronal”, disse Kihara.
“Mostramos também que os neurônios que estão em apoptose mantêm a expressão de conexinas – que são proteínas responsáveis por formar os canais de junções comunicantes, permitindo a ocorrência do acoplamento. Isso é importante, porque assim pudemos eliminar a hipótese de que um neurônio em processo de apoptose pudesse deixar de expressar as proteínas que formam o canal de acoplamento”, disse.
Segundo Kihara, a partir de agora os estudos irão investigar a hipótese de que os miRNAs transitem pelos canais de junções comunicantes e participam do processo de espalhamento da apoptose entre células acopladas.
A equipe que trabalhará com essa hipótese terá a participação de Erica de Sousa, aluna de graduação da UFABC e autora de um capítulo sobre miRNAs no livro Sinalização de Cálcio: Bioquímica e Fisiologia Celulares, que será lançado no início de outubro, no 1º Simpósio Brasileiro de Sinalização de Cálcio: Bioquímica e Fisiologia Celulares, na UFMG.
De acordo com Kihara, os estudos continuarão também a explorar as possibilidades de utilizar o desacoplamento de neurônios como estratégia de neuroproteção, com potencial aplicação no tratamento de doenças neurodegenerativas.
“Continuaremos investigando como e quando fazer isso de forma mais eficiente dependendo da doença. Mas acreditamos que uma nova porta foi aberta para estudos em neurodegeneração”, disse.
O artigo Blocking of Connexin-Mediated Communication Promotes Neuroprotection during Acute Degeneration Induced by Mechanical Trauma, de Vera Paschon e outros, pode ser lido na PLoS Oneem 

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Segue a primeira de 8 aulas do amigo Rosimael Losasi.
Espero que aprendam a lidar com essa maravilhosa calculadora que é a HP 12 C.

Professor Anderson Luz

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Cientistas conseguem rejuvenescer músculos de camundongos


Posted: 26 Sep 2012 02:03 PM PDT

Por O Globo (ciencia@oglobo.com.br) | Agência O Globo

RIO – Na tentativa de combater o envelhecimento, uma equipe de cientistas da King’s College de Londres, da Universidade de Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts conseguiu rejuvenescer músculos de camundongos. A descoberta pode levar a processos que retardam o desgaste do tecido nos seres humanos, o que evitaria problemas de mobilidade.
O estudo avaliou as células-tronco encontradas no interior de um músculo que são responsáveis por reparar ferimentos. O objetivo era descobrir o porquê das habilidades deste declinarem com a idade. Uma espécie de reservatório adormecido deste tipo de célula pode ser encontrado dentro de cada músculo e elas estão prontas para serem ativadas através de exercícios para curar os danos de machucados. Para isso, podem se dividir em centenas de novas fibras, que reparam o tecido. Ao fim do processo, algumas reabastecem o reservatório para que, desta maneira, o músculo possa reter a capacidade de se recuperar novamente no futuro.
Os pesquisadores iniciaram, então, um estudo com camundongos velhos e descobriram que o número de células-tronco adormecidas no reservatório diminui com a idade, o que pode explicar a perda da habilidade de um músculo em reparar os danos com o passar do tempo. Ao destacarem os desgastados tecidos, a equipe encontrou alta quantidade de FGF-2, uma proteína que tem a capacidade de estimular as células a se dividirem. A função da substância, porém, já era conhecida. A novidade é que a proteína também ativa os reservatórios acormecidos mesmo quando não necessário. O contínuo estímulo causa, então, o desgaste deste espaço, de maneira que, quando o músculo realmente precisar, não poderá responder da maneira mais adequada.
Após a descoberta, os cientistas buscaram inibir a FGF-2 em velhos músculos para prevenir o reservatório de células-tronco de entrar em ação quando não for preciso. Ao administrarem uma droga inibidora da proteína, conseguiram evitar o declínio do número deste tipo de célula nos ratos.
Para Albert Basson, autor da pesquisa pela King’s College, ainda há uma longo caminho de estudos para ser percorrido antes se pensar em prevenir ou reverter o desgaste muscular em seres humanos idosos.
- Pela primeira vez, porém, foi revelado um processo relacionado ao envelhecimento dos músculos, o que é algo impactante para a ciência. Se conseguirmos desenvolver um tratamento neste sentido para humanos, poderemos dar às pessoas uma maneira de viverem de forma mais independente com o passar do tempo.
Já Andrew Brack, represente de Harvard, faz uma comparação com a rotina de atletas.
- Análoga à importância da recuperação de esportistas que se preparam para alguma competição, sabemos agora que as células-tronco adultas precisam descansar entre os esforços. Evitar este processo pode levá-las a uma eventual morte.
Kieran Jones, coautor do estudo pela King’s College, porém, acrescenta:
- Ainda não sabemos como ou por que a quantidade de FGF-2 nos roedores aumenta com o tempo, o que ativa as células-tronco de forma desnecessária. É algo que precisa ser explorado. O próximo passo é verificar se o mesmo mecanismo é responsável pelo esgotamento deste tipo de célula nas fibras musculares humanas, o que gera perda de massa e desperdício do tecido.

Câncer de mama e de ovário têm origem genética parecida, diz estudo


Posted: 26 Sep 2012 02:00 PM PDT

Do G1, em São Paulo

A mais completa análise genética já feita sobre o câncer de mama, publicada no domingo (23) no site da revista “Nature”, aponta que um dos quatro subtipos mais mortais desse tumor tem origem e características semelhantes ao de ovário.
Segundo os autores, liderados pelo pesquisador Matthew J. Ellis, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis, nos EUA, a descoberta sugere que as duas doenças poderiam ser tratadas no futuro com os mesmos medicamentos. Isso porque, mais do que serem vistos de acordo com a localização no corpo, os tumores devem ser catalogados e cuidados com base nos genes que são interrompidos.
Ao todo, foram analisadas 825 mulheres com tumor de mama. Por meio de seis tecnologias diferentes, os cientistas avaliaram 350 cânceres. Os quatro principais subtipos mais letais são: basal, HER2, luminal A e luminal B.
Com a ajuda de cientistas da Universidade da Carolina do Norte, a equipe identificou que mutações em apenas três genes (TP53, PIK3CA e GATA3) são responsáveis por câncer de mama em mais de 10% das pacientes, a maioria jovens e afrodescendentes.
Cerca de 80% dos tumores basais tinham mutações no gene TP53, e os outros 20% apresentavam alterações nos genes BRCA1 e BRCA2 – esses três também são responsáveis por aumentar o risco de câncer de ovário.
A maioria das pacientes com câncer do tipo luminal A apresentou bons resultados, e a mutação mais comum foi no gene PIK3CA, presente em 45%. Alterações no TP53 ocorreram em 12% desses casos.
Já no subtipo luminal B, as mutações mais comuns ocorreram nos genes TP53, ligado a maus resultados, e PIK3CA, relacionado a bons prognósticos.
Além deles, os cânceres do tipo HER2 não tinham receptores dos hormônios estrogênio, progesterona e do fator de crescimento epidérmico, que atua na regeneração celular. Esse tumor normalmente não responde a tratamentos hormonais nem quimioterápicos.
O projeto faz parte do Atlas do Genoma do Câncer, financiado pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos EUA, cujo objetivo é identificar e catalogar mutações genéticas envolvidas nos tipos de tumor mais comuns.
Na opinião da co-autora Elaine Mardis, do Instituto Genoma, esses dados podem servir para responder a outras perguntas sobre como mutações específicas afetam a sobrevivência de uma pessoa ou a resposta a certas drogas, o que pode levar a novas estratégias de tratamento.
De acordo com os cientistas, novos trabalhos nesse sentido ainda são necessários. Atualmente, o câncer de mama do tipo “basal” é tratado com quimioterápicos que não são tão eficazes e ainda têm efeitos colaterais severos.

Ambiente pode atuar na mudança de comportamento e expressão dos genes


Posted: 26 Sep 2012 01:37 PM PDT


Pelo menos em abelhas. Observar o comportamento de abelhas, o modo como elas se organizam em castas, com funções e responsabilidades bem definidas, sem questionamentos, é fascinante. A grande questão, que tem intrigado os cientistas há muito tempo, é como essas tarefas, que elas exercem com perfeição, são determinadas. Como todas as abelhas de uma colmeia possuem os mesmos genes, a explicação não está neles. Sugere outros mecanismos, entre eles os epigenéticos, isso é, alterações não nos genes, mas no modo como eles se expressam. Falamos disso nas últimas colunas  com a divulgação do projeto ENCODE.
Um grupo de cientistas americanos resolveu testar essa hipótese de modo muito engenhoso. Os resultados dessa pesquisa em abelhas acaba de ser publicada na revista Nature Neuroscience. Os resultados são surpreendentes. Os cientistas descobriram que o comportamento das sub-castas de abelhas é controlado pela ativação ou silenciamento de genes e o mais interessante é que esse comportamento é reversível.

Recordando: como se organizam as abelhas nas colmeias?
Nas colmeias, existem as rainhas que são alimentadas com geleia real e passam a vida colocando ovos e as sub-castas das operárias que são estéreis. Entre as  operárias as funções e responsabilidades são também bem definidas e organizadas. Quando jovens, elas exercem a função de cuidadoras (nursing em inglês) e são responsáveis por cuidar da rainha e das larvas dentro da colmeia. Mais tarde, elas se tornam “provedoras” ou abelhas campeiras (forager em inglês), isto é, saem da colmeia para buscar alimentos (pólen, néctar e água).

O que determina essas diferenças de comportamento?
Essa era a grande questão a ser pesquisada. Para verificar se o comportamento e as responsabilidades entre os diferentes grupos eram controlados por uma expressão (ativação ou silenciamento) diferente (ou específica) dos genes, os pesquisadores compararam quatro grupos de abelhas:
a) rainhas versus operárias
b) cuidadoras versus provedoras
Usaram uma técnica chamada CHARM ( do inglês comprehensive high-throughput array-based relative methylation) que identifica no DNA as regiões que estão ativas ou silenciadas.

Quais  foram os resultados?
Os pesquisadores não conseguiram detectar diferenças na expressão dos genes entre rainhas e operárias. Essa questão ainda é uma incógnita. Mas, surpreendentemente, encontraram diferenças significativas no padrão de expressão dos genes quando compararam as “abelhas cuidadoras” e as “abelhas provedoras”.  Regiões do genoma que estavam ativas nas cuidadoras, apareciam silenciadas nas provedoras e vice-versa. Seria isso regulado pela idade, já que as provedoras são mais velhas? Ou poderia ser um processo reversível? Algo como dizer que a perda de pigmentação dos nossos cabelos está relacionada com a idade e sabemos que, infelizmente, nesse caso é um processo não reversível.

Qual foi o próximo passo?
Para tirar isso a limpo, os pesquisadores então fizeram o seguinte experimento. Colocaram abelhas mais velhas, que já tinha assumido a função de provedoras em uma colmeia onde só havia rainhas e larvas, sem operárias cuidadoras. O que aconteceu? Um grupo de provedoras permaneceu como estava, enquanto em outro grupo houve uma reversão e as abelhas reassumiram a função de cuidadoras. Essa alteração de comportamento foi acompanhada pela mudança na expressão dos genes. Estava provado que as funções eram realmente controladas pela expressão dos genes, em resposta a uma sinalização ambiental, e mais ainda, que esse controle é reversível.

As próximas questões
Pela primeira vez foi demonstrado que a variação na expressão dos genes em resposta ao ambiente induz  uma mudança comportamental. Os pesquisadores esperam que essas observações possam  nos ajudar a entender melhor como são controlados comportamentos complexos em seres humanos como apendizado, stress, doenças de humor que involvem interações entre o ambiente e a expressão dos genes. Demonstrar – por enquanto em abelhas –  que é possível atuar em padrões comportamentais e alterar a expressão dos genes deve soar como uma música para meus colegas psicanalistas.

Cérebros humanos são mais parecidos do que se pensava, aponta estudo


Posted: 20 Sep 2012 02:54 PM PDT
Efe
Apesar das diferenças em personalidade e habilidades cognitivas, os cérebros humanos são mais parecidos do que se pensava e escondem uma grande complexidade bioquímica, informa a revista científica “Nature”.
Os cérebros compartilham a mesma estrutura molecular básica, mesmo pertencendo a pessoas muito diferentes, e possuem uma “enorme complexidade bioquímica”, explicou à Agência Efe Ed Lein, neurobiólogo e co-autor do estudo.
Estas conclusões procedem da primeira análise em grande escala dos dados obtidos pelo projeto “Allen Human Brain Atlas”, o primeiro mapa em alta resolução do cérebro humano que integra tanto sua anatomia como sua informação genética.
Embora o atlas já tenha sido apresentado no ano passado, a publicação britânica divulga apenas hoje as primeiras conclusões do estudo, realizado por uma equipe de cientistas do Allen Institute for Brain Atlas de Seattle, liderados pelo matemático Michael Hawrylycz.
O mapa, desenhado a partir do cérebro completo de dois homens saudáveis e de um só hemisfério de um terceiro, abrange cerca de 900 subdivisões deste órgão e permite visualizar em três dimensões a atividade dos genes em distintas partes do cérebro.
Assim, os cientistas observaram que 84% dos genes se expressam em algum lugar do cérebro humano, em padrões que se parecem muito em diferentes cérebros.
Além disso, segundo Lein, o hemisfério direito e esquerdo não mostram grandes diferenças quanto à arquitetura molecular.
“Estes resultados só arranham a superfície do que podemos aprender a partir deste imenso conjunto de dados. Estamos impacientes para ver o que outros (pesquisadores) podem descobrir”, comentou Lein.
Os cientistas continuarão acrescentando dados ao atlas durante este ano, e com eles esperam obter nova informação sobre o impacto de doenças como o Alzheimer, epilepsia, Parkinson, autismo e esquizofrenia sobre distintas regiões cerebrais.
Há vários anos existem mapas de alta resolução que mostram a expressão dos genes no cérebro dos ratos, mas até agora só haviam sido elaborados atlas muito simplórios do cérebro humano devido, entre outros fatores, ao fato de ser mil vezes maior que o dos roedores.

Pesquisadores usam células-tronco para tratar surdez


Posted: 20 Sep 2012 02:51 PM PDT
Os autores de um estudo publicado na revista Nature dizem que conseguiram recuperar parcialmente a audição de roedores, ao reconstruir os nervos do ouvido que transmitem os sons para o cérebro.
Os cientistas avaliam que o mesmo resultado em humanos permitiria que alguém incapaz de ouvir o barulho de um congestionamento consiga escutar uma conversa normal.
No entanto, os pesquisadores admitem que aplicar o tratamento em seres humanos ainda é um projeto distante.
Para ouvir rádio ou conversar com um amigo, as pessoas precisam que seus ouvidos convertam as ondas sonoras no ar em sinais elétricos que podem ser compreendidos pelo cérebro.
Esse processo ocorre dentro do ouvido interno, onde as vibrações movem cílios minúsculos – e esse movimento cria um sinal elétrico.
No entanto, em cerca de uma em cada dez pessoas com surdez profunda, as células nervosas que deveriam captar o sinal não funcionam corretamente. É como derrubar o bastão na primeira passagem de uma prova de revezamento.
O objetivo dos pesquisadores da Universidade de Sheffield era substituir as células nervosas com defeito, chamadas neurônios do gânglio espiral.
O grupo de cientistas utilizou células-tronco de um embrião humano, que são capazes de se desenvolver em outros tipos de células do corpo humano – de nervos à pele, passando por músculos e rins, entre outros.
Uma mistura química foi acrescentada às células-tronco para convertê-las em células parecidas com os neurônios do gânglio espiral. Em seguida, elas foram cuidadosamente injetadas no ouvido interno de 18 roedores surdos.
Após dez semanas, a audição dos roedores melhorou. Em cerca de 45% dos animais testados, a capacidade de audição foi restaurada ao final do estudo.
“Isso significaria passar de tão surdo que você não pode ouvir um caminhão na rua a um nível em que você pode ouvir uma conversa”, diz o cientista Marcelo Rivolta.
“Não é uma cura completa”, acrescenta. “Você não conseguirá ouvir um sussurro, mas certamente será capaz de manter um diálogo em uma sala.”
Cerca de um terço dos roedores respondeu muito bem ao tratamento e alguns recuperaram 90% da audição – apenas menos de um terço não apresentou reação.
Os roedores usados na pesquisa foram gerbilos, animais capazes de ouvir uma variedade de sons semelhante à ouvida pelos humanos e diferente da dos camundongos – que escutam sons mais agudos.
Os cientistas detectaram a melhora na audição ao medir as ondas cerebrais dos animais. Os roedores foram testados por apenas dez semanas – se o tratamento for aplicado em humanos, o efeito precisará ser observado durante um período muito maior.
O estudo também deve reacender a polêmica sobre a segurança e a ética de tratamentos com células-tronco.
“É um grande momento, realmente um importante avanço”, avalia o cientista Dave Moore, diretor do Conselho de Pesquisa Médica do Instituto de Pesquisa sobre Audição, em Nottingham.
O especialista alerta, no entanto, para os desafios de aplicar o tratamento em humanos.
“O maior problema é realmente chegar à parte do ouvido interno em que isso pode funcionar”, afirmou Moore à BBC. “É extremamente pequeno e muito difícil de alcançar. Esse seria um feito realmente formidável.”
“A pesquisa é incrivelmente encorajadora e nos dá uma esperança real de que será possível corrigir a verdadeira causa de alguns tipos de perda da audição no futuro”, diz o pesquisador Ralph Holme, chefe de pesquisas biomédicas da organização beneficente Action on Hearing Loss.
“Para milhões de pessoas que têm a qualidade de suas vidas prejudicada pela perda de audição, já não era sem tempo”, acrescenta Holme.

Projeto ENCODE e células-tronco


Posted: 20 Sep 2012 02:45 PM PDT

Na semana passada falei do projeto ENCODE que mostrou que apesar do fato de termos só um pouco mais de 20.000 genes, o DNA que está entre eles tem um papel fundamental na sua regulação. Não precisamos mais nos sentir inferiorizados em comparação com o vermezinho C.Elegans ou o tomate, que tem um número maior de genes que nós, humanos. A dignidade do nosso genoma foi resgatada. Mas qual será a aplicação prática dessas novas descobertas?  Como as células-tronco poderão nos ajudar?

Entender o nosso genoma será muito mais complexo
Os  cientistas identificaram 4 milhões de variantes ao longo do nosso genoma que têm função regulatória e que controlam o funcionamento dos nossos genes. São essas variantes que controlam os genes que vão ser ligados (ativados) ou desligados (silenciados), se eles vão expressar uma quantidade maior ou menor de um produto. Os pesquisadores analisaram também quase 150  tipos celulares para verificar como a expressão do genoma difere entre uma célula e outra, o que diferencia uma célula de fígado de uma de rim, por exemplo.

O uso de modelos animais poderá ser mais limitado
O fato de termos tantas sequências regulatórias explica porque algumas doenças humanas diferem tanto em modelos animais. Por exemplo, na distrofia de Duchenne, que só afeta meninos, a doença é causada pela ausência de proteína distrofina no músculo. Isso causa a degeneração muscular e perda da ambulação ao redor dos 10 anos. Já o camundongo mdx, que também não tem distrofina no músculo e que poderia portanto ser um modelo clínico ideal para DMD, não tem fraqueza muscular. A resposta, nesse caso, certamente não está nos genes, mas nas sequências regulatórias que devem ser diferentes nos humanos e camundongos. Será que o camundongo mdx consegue ativar outro gene que cumpre o papel de manter o músculo funcional? E se isso for verdade como transportar essa informação para os seres humanos?

E qual será o papel das células-tronco nisso?
As células-tronco obtidas de pacientes poderão ser parceiras muito importantes. Quando falamos de células-tronco as pessoas sempre pensam no seu potencial para regenerar tecidos ou quem sabe órgãos no futuro. Mas elas têm um outro papel muito importante. Já falei disso em colunas anteriores. 
A partir de células da pele de uma pessoa – ou paciente – podemos gerar, no laboratório linhagens celulares que representam todos os tecidos daquela pessoa: músculos, sangue, ossos, células nervosas entre outras. Isso nos permite analisar o funcionamento dos genes, como eles se expressam em diferentes tecidos, porque uma mutação pode afetar um tecido e não outro e principalmente porque pessoas com a mesma mutação podem ter quadros clínicos tão diferentes. E o melhor de tudo. Podemos manipulá-las, estudá-las, compará-las e realizar inúmeras experiências que seriam impossíveis nas pessoas. As células passam a ser nossos pacientes.

As células-tronco e os resultados do projeto ENCODE  nos abrem muitas novas perspectivas para tratar inúmeras doenças genéticas ou complexas
Além das doenças genéticas, podemos citar o câncer, diabetes, artrite reumatoide ou outras doenças auto-imunes. Se por um lado alterar um gene – ou às vezes vários no caso de doenças complexas – é extremamente difícil podermos atuar na sua regulação ao desvendar os mecanismos responsáveis. Podemos aumentar a expressão de um gene (ou genes) que está pouco funcional ou ao contrário silenciá-lo se ele estiver muito ativo ou produzindo um produto em excesso. Ou descobrir se há algum outro gene capaz de desempenhar um papel semelhante. Podemos testar inúmeras drogas ou estratégias para reverter o defeito responsável por uma doença genética nas células daquele paciente antes de nos preocuparmos com os possíveis efeitos colaterais ou aspectos éticos de usar o ser humano como cobaia.

Em resumo
Entender como essa maravilhosa orquestra do genoma humano funciona é fascinante. Teremos assunto para muitos anos de pesquisas.  Entender qual é o mecanismo que protege algumas pessoas dos efeitos deletérios de uma mutação poderá abrir novas perspectivas de tratamento para inúmeras doenças. Esperemos que as informações obtidas pelo projeto ENCODE e as novas tecnologias possam nos ajudar a desvendar os mistérios por trás dessa nossa imensa variabilidade e nos fornecer novas pistas para tratamentos.
Por Mayana Zatz

DNA revela segredos que não poderiam ser revelados


Posted: 30 Aug 2012 02:07 PM PDT

Os avanços na análise de DNA (sequenciamento do genoma) estão, com frequência cada vez maior, revelando segredos inesperados. Como lidar com isso? Segurar um informação que pode salvar uma vida respeitando uma cláusula de anonimato ou quebrar as regras da confidencialidade? Diz Francis Collins, um dos responsáveis pelo Projeto Genoma Humano e hoje diretor do National Institute of Health: “Estamos vivendo um momento em que nossa capacidade de obter informações frequentemente excede a nossa capacidade para lidar com elas”. Já cantei essa bola várias vezes. O governo americano tem gasto milhões de dólares em pesquisas relacionadas a como lidar com essas questões na nova era genômica. Não há respostas fáceis. A jornalista Jennifer Ackerman, em um artigo publicado em 26 de agosto noThe New York Times dá exemplos de quão complicadas podem ser algumas situações.

Devemos revelar achados inesperados de testes genéticos? Em caso positivo como e quando?
O primeiro grande impasse aparece porque, ao doar amostras para pesquisas – sejam de DNA ou tecidos -, os voluntários, nos Estados Unidos, assinam um termo dizendo que não serão contatados pelos pesquisadores. Eles aceitam contribuir para as pesquisas e ponto final. Na busca por uma determinada mutação, porém, os cientistas acabam se deparando com outros achados que podem ter um impacto muito importante na vida do doador. Já discuti vários desses dilemas no meu livro Gen ÉTICA e em outra situação mais recente.

Como lidar com isso?
Teste positivo para HIV
O pesquisador que coletou uma amostra para analisar genes de câncer de um controle normal – para validar achados relacionados às suas pesquisas – descobre inesperadamente a presença de genes do vírus que causa aids. Para comprovar se o doador está contaminado são necessários novos exames. Mas o voluntário assinou um termo –  aprovado por comitês de ética – concordando em não ser contatado. Qualquer alteração nesse documento teria que ser previamente aprovada pelo comitê de ética, o que pode levar muito tempo. Por outro lado, se for confirmado que o doador é realmente HIV positivo, além da importância do tratamento precoce, omitir ou retardar essa informação pode ocasionar a contaminação de outras pessoas pelo vírus da aids. Que conduta adotar?

Achados inesperados que podem ser beneficiados com novos tratamentos 
Em um estudo relacionado com genes de colon de intestino, os pesquisadores descobriram que alguns dos voluntários tinham mutações associadas a outras formas de câncer – como câncer de mama ou de pele (melanoma) – cujo prognóstico melhora drasticamente com drogas recentemente identificadas. É ético não contactá-los?

Evitar medidas drásticas
Uma jovem senhora pertencia a uma família com vários casos de câncer de mama precoce. Horrorizada com a perspectiva de poder ser a próxima vítima havia decidido submeter-se a uma mastectomia total (retirada dos dois seios). Não queria correr riscos. Entretanto, uma vez identificado o gene responsável pelo câncer que havia atingido várias mulheres de sua família, descobriu-se que ela não possuía a mutação. De acordo com a geneticista Barbara Biesecker, diretora do programa de Aconselhamento genético do NIH, “Não podíamos simplesmente sentar-nos e esperar essa senhora retirar seus dois seios saudáveis”. Consultaram o comitê de ética e decidiram romper o contrato e informá-la acerca dos resultados. Ainda bem.

Resultados que podem afetar outros membros da família
E o que fazer se for achada uma mutação que pode estar presente em outros membros da família que também poderiam ser beneficiados com tratamento precoce ou com Aconselhamento Genético? E se o doador da amostra já estiver morto? Ou se for achada uma mutação em uma amostra que foi coletada há mais de 20 anos?
Esses são alguns dos dilemas que estão surgindo. Com o sequenciamento do genoma inteiro procurar uma mutação e achar outra será cada vez mais comum. Essas situações terão que ser discutidas por equipes multidisciplinares de geneticistas, médicos, juristas e psicanalistas. Não há regras específicas de conduta. As decisões sobre informar ou não o paciente deverão ser baseadas sempre em como elas poderão beneficiá-los. Essa é, na minha opinião, a regra que deve prevalecer.
Por Mayana Zatz

http://veja.abril.com.br/blog/genetica/pesquisas/dna-revela-segredos-que-nao-poderiam-ser-revelados/

Projeto ENCODE resgata a dignidade do nosso genoma


Posted: 13 Sep 2012 06:01 AM PDT

Na semana passada o projeto ENCODE, que envolveu mais de 400 cientistas de 32 laboratórios, anunciou com grande alarde que o DNA do nosso genoma – chamado “lixo”(do inglês junk DNA) – era funcional. O termo ENCODE vem do inglês “encyclopedia of coding elements (enciclopédia de elementos codificadores). Será que em português será chamado de ENDECO? Enciclopédia de elementos codificadores? Será que o conceito de gene não terá que ser revisto? Qual é o impacto desse projeto?

O anúncio não é surpresa
Para nós geneticistas, que trabalhamos com doenças genéticas, descobrir que as mutações ou erros genéticos nos nossos genes frequentemente não são determinísticos e que o DNA que era chamado injustamente de lixo (junk DNA) tem de fato um papel importante não foi surpresa. A denominação DNA lixo é que tem que ir para o lixo. Definitivamente. Desde o fim da década de 80, quando começamos a identificar as mutações que causam doenças genéticas, observamos que pessoas portadoras do mesmo erro genético podiam ter quadros clínicos completamente diferentes. A explicação não podia estar nos genes. Entender a variabilidade que está por trás disso tem sido um dos principais focos das nossas pesquisas no Centro do Genoma Humano. Já publicamos vários trabalhos a respeito.

Irmãos e parentes discordantes
Um dos grandes desafios é entender como pessoas portadoras da mesma mutação – muitas vezes irmãos – podem ter quadros clínicos diferentes ou discordantes. Essa pergunta vem nos perseguindo desde a década de 80, quando começamos a identificar mutações que causavam doenças genéticas. Os exemplos são inúmeros. Lembro-me de uma família com vários irmãos afetados por uma forma de distrofia muscular, que causa a degeneração progressiva dos músculos e uma fraqueza crescente. Conseguimos descobrir qual era a mutação que causava o problema naquela irmandade. Mas enquanto uma das  irmãs mais novas havia perdido a capacidade para andar aos 20 anos e dependia de uma cadeira de rodas para se locomover, a irmã mais velha conseguia andar  independentemente depois dos 50. Segundo ela, isso explicava-se por sua fé e orações.
Outro exemplo que me marcou era de uma familia com vários afetados por uma outra forma de distrofia muscular. Para descobrir qual era a mutação coletamos sangue de todos os familiares. Como alguns moravam no Nordeste, combinamos que iriam nos mandar o sangue e viriam para a consulta após termos o resultado. Depois de algumas semanas conseguimos identificar qual era o gene responsável por aquela patologia. Todos os afetados tinham uma mesma mutação em um gene que já havia sido descrito como responsável pela degeneração muscular. Encontramos a mesma mutação em dois dos parentes que viviam no Nordeste e como combinado os convocamos para uma consulta já com o relatório pronto descrevendo o resultado do exame genético.
Teriam finalmente a explicação para a sua fraqueza muscular, pensei. Entretanto, qual foi a nossa surpresa ao ver que os dois, com mais de 40 anos, eram fortes e saudáveis. Jogavam futebol, conseguiam correr e pular sem nenhuma dificuldade. Contaram-nos que haviam fornecido  amostras de sangue para colaborar com a pesquisa, para ajudar os parentes afetados. Escondi o relatório em uma gaveta, envergonhada. Era mais uma prova de que muita coisa poderia acontecer no nosso genoma muito além dos genes. Como explicar que pessoas com a mesma mutação podiam ter quadros tão diferentes? Era uma pergunta que nos perseguia muito antes do início do Projeto Genoma Humano.

Em 1990 foi iniciado o projeto GENOMA HUMANO
Ele tinha como objetivo, identificar até 2005 todos os genes responsáveis por nossas características hereditárias. Será que ele nos forneceria as respostas para essas questões ? As apostas eram que tínhamos entre 100.000  a 150.000 genes. Surpreendentemente, em 2003, dois anos antes do esperado, foi anunciado o término do Projeto Genoma Humano. Mas logo começaram as decepções. Ao invés dos anunciados 100 a 150.000 genes descobrimos que só tinhamos pouco mais de 20.000, quase o mesmo número que de um vermezinho chamadoC.elegans que mede  apenas 1 milímetro. E mais recentemente descobrimos que perdemos até do tomate que tem mais de 30.000 genes. Menos que um simples tomate! Era óbvio que nosso genoma, com toda a complexidade do ser humano, não podia ser explicada por esses 21.000 genes, que representam só 2% do nosso genoma. Qual é o papel dos  outros 98%? Não podia ser um DNA sem função. A natureza é mais sábia do que isso. Repito. Como explicar a discordância clínica em pessoas portadoras da mesma mutação supostamente patogênica? Se já desconfiávamos que muitas das informações responsáveis pela enorme complexidade do ser humano não estariam nos genes, mas no imenso “deserto” entre eles, agora tínhamos a certeza.

Em setembro de 2003 foi iniciado o projeto ENCODE
Esse projeto, uma continuação do projeto GENOMA HUMANO e que acaba de ser anunciado, confirma as nossas suspeitas. Sempre defendi que esse DNA que está entre os genes é um material genético muito importante. Não podíamos classificá-lo como lixo só porque sua função não era ainda conhecida. Os cientistas acreditam que 80% do nosso genoma tem atividade, tem alguma função. Mas isso é só um começo. De acordo com Ewan Birney, um biologista computacional do Reino Unido que participou do projeto, isso que acaba de ser anunciado talvez seja só 10% do que ainda resta descobrir. Acredito que ele poderá revolucionar não só nossos conhecimentos sobre o funcionamento do nosso genoma, mas também o tratamento de inúmeras doenças genéticas. Será que o projeto ENCODE vai nos dar novas pistas para descobrir finalmente  por que pessoas portadoras da mesma mutação, muitas vezes da mesma família, podem ter quadros muito discordantes?
Por Mayana Zatz

Deserto mapeado


Posted: 09 Sep 2012 09:07 AM PDT

MAYANA ZATZ – O Estado de S.Paulo

Foi notícia em todos os jornais: mais de 400 cientistas de 32 laboratórios anunciaram no dia 6 de setembro o projeto Encode (do inglês encyclopedia of coding elements, ou enciclopedia de elementos codificadores), nove anos depois do anúncio do término do projeto Genoma Humano. Para dizer a verdade, para nós que trabalhamos com doenças genéticas, descobrir que as mutações ou erros nos genes frequentemente não são determinísticas, e que o DNA que era chamado injustamente de “lixo” (junk DNA) tem na realidade um papel importante, não foi surpresa.
Desde o fim da década de 80, quando começamos a identificar as mutações que causam doenças genéticas, observamos que pessoas portadoras do mesmo erro genético podiam ter quadros clínicos completamente diferentes. Os exemplos são inúmeros. Lembro-me de uma família com vários irmãos afetados por uma forma de distrofia muscular, que causa a degeneração progressiva dos músculos e uma fraqueza crescente. Conseguimos descobrir qual era a mutação que causava o problema naquela irmandade. Mas, enquanto uma das irmãs mais novas havia perdido a capacidade de andar aos 20 anos e dependia de uma cadeira de rodas para se locomover, a irmã mais velha conseguia andar independentemente depois dos 50. Segundo ela, isso se explicava por sua fé e orações.
Outro exemplo que me marcou era de uma família com vários afetados por uma outra forma de distrofia muscular. Para descobrir qual era a mutação coletamos sangue de todos os familiares. Como alguns moravam no Nordeste, combinamos que iriam nos mandar o sangue e viriam para a consulta após termos o resultado. Depois de algumas semanas, conseguimos identificar qual era o gene responsável por aquela patologia. Todos os afetados tinham uma mesma mutação em um gene que já havia sido descrito como responsável pela degeneração muscular. Encontramos a mesma mutação em dois dos parentes que viviam no Nordeste e, como combinado, os convocamos para uma consulta, já com o relatório pronto descrevendo o resultado do exame genético. Teriam finalmente a explicação para sua fraqueza muscular, pensei.
Entretanto, qual não foi nossa surpresa ao ver que os dois, já com mais de 40 anos, eram fortes e saudáveis! Jogavam futebol, conseguiam correr e pular sem nenhuma dificuldade. Contaram-nos que haviam fornecido amostras de sangue para colaborar com a pesquisa, para ajudar os parentes afetados. Escondi o relatório em uma gaveta, envergonhada. Era mais uma prova de que muita coisa poderia acontecer no nosso genoma muito além dos genes. Como explicar que pessoas com a mesma mutação podiam ter quadros tão diferentes? Era uma pergunta que nos perseguia muito antes do início do projeto Genoma Humano.
Em 1990 foi iniciado o projeto, que tinha como objetivo identificar até 2005 todos os genes responsáveis por nossas características hereditárias. Será que ele nos forneceria as respostas para essas questões? As apostas eram que tínhamos entre 100 mil e 150 mil genes. Surpreendentemente, em 2003, dois anos antes do esperado, foi anunciado o término do Projeto Genoma Humano. Tive o privilégio de estar em Cancún, México, quando o dr. Francis Collins, um dos cientistas responsáveis por esse projeto, anunciava o grande feito: “We did it, we did it”, repetia, radiante. E daí? Qual era a importância daquilo? Logo começaram as decepções. Em lugar dos anunciados 100 mil a 150 mil genes, descobrimos que tínhamos pouco mais de 20 mil, quase o mesmo número de um vermezinho chamado C. elegans, que mede apenas 1 mm. Mais recentemente, descobrimos que perdemos até do tomate, que tem mais de 30 mil genes. Termos menos genes que o tomate é inaceitável, concordam? Era óbvio que nosso genoma, com toda a complexidade do ser humano, não podia ser explicado por esses 21 mil genes, que representam só 2% do nosso genoma. Qual é o papel dos outros 98%? Como explicar a discordância clínica em pessoas portadoras da mesma mutação supostamente patogênica? Se já desconfiávamos que muitas das informações responsáveis pela enorme complexidade do ser humano não estariam nos genes, mas no imenso “deserto” entre eles, agora tínhamos a certeza.
Em 2003, foi iniciado o projeto Encode, uma continuação do Genoma Humano, que acaba de ser anunciado, confirmando nossas suspeitas. Os cientistas acreditam que 80% do nosso genoma tem atividade, tem alguma função. Mas isso é só um começo. De acordo com Ewan Birney, um biologista computacional do Reino Unido, isso que acaba de ser anunciado talvez seja só 10% do que ainda resta descobrir. Sempre defendi que esse DNA que está entre os genes é um material genético muito importante. Não podíamos classificá-lo como lixo só porque sua função não era ainda conhecida. E é justamente isso que está mostrando o gigantesco projeto Encode. Ele poderá revolucionar não só nossos conhecimentos acerca do funcionamento do nosso genoma, mas também o tratamento de inúmeras doenças genéticas. Será que o projeto Encode vai nos dar novas pistas para descobrir finalmente por que pessoas portadoras da mesma mutação, muitas vezes pertencentes à mesma família, podem ter quadros tão discordantes? Entender qual é o mecanismo que protege algumas pessoas dos efeitos deletérios de uma mutação poderá abrir novas perspectivas de tratamento para inúmeras doenças.
Por um lado, entender nosso genoma será muito mais complexo. Os cientistas identificaram 4 milhões de variantes ao longo do nosso genoma que têm função regulatória e controlam o funcionamento dos nossos genes. São essas variantes que controlam os genes que vão ser ligados (ativados) ou desligados (silenciados), se eles vão expressar uma quantidade maior ou menor de um produto. Os pesquisadores analisaram também quase 150 tipos celulares para verificar como a expressão do genoma difere entre uma célula e outra, o que diferencia uma célula de fígado de uma de rim, por exemplo.
A boa noticia é que isso nos abre muitas novas perspectivas para tratar inúmeras doenças genéticas ou complexas como câncer, diabete, artrite reumatoide ou outras doenças autoimunes. Se por um lado alterar um gene é extremamente difícil, poderemos atuar na sua regulação ao desvendar os mecanismos responsáveis. Poderemos aumentar a expressão de um gene que está pouco funcional ou, ao contrário, silenciá-lo se ele estiver muito ativo ou produzindo em excesso.
As células-tronco, não como agentes de terapia celular, mas obtidas de pacientes, poderão ser parceiras muito importantes. Deixe-me explicar. Quando falamos de células-tronco as pessoas sempre pensam no seu potencial para regenerar tecidos ou, quem sabe, órgãos no futuro. Mas elas têm outro papel muito importante. A partir de células da pele de uma pessoa – ou paciente- podemos gerar, no laboratório linhagens celulares que representem todos os tecidos daquela pessoa: músculos, sangue, ossos, células nervosas, entre outras. Isso nos permite analisar o funcionamento dos genes, como eles se expressam em diferentes tecidos, por que uma mutação pode afetar um tecido e não outro e principalmente por que pessoas com a mesma mutação podem ter quadros clínicos tão diferentes. E, o melhor de tudo: podemos testar inúmeras drogas ou estratégias para reverter o defeito causado por aquela mutação nas células daquele paciente. Podemos manipulá-las, estudá-las, compará-las e realizar inúmeras experiências que seriam impossíveis nas pessoas. As células passam a ser nossos pacientes.
Entender como essa maravilhosa orquestra do genoma humano funciona é fascinante. Teremos assunto para muitos anos de pesquisas. Esperemos que as informações obtidas pelo projeto Encode possam nos ajudar a desvendar os mistérios por trás dessa nossa imensa variabilidade e nos fornecer novas pistas para tratamentos.

Quase todo o genoma humano tem alguma função, diz pesquisa


Posted: 07 Sep 2012 05:46 AM PDT

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

Parece que a ciência finalmente está começando a abrir a caixa-preta do genoma. Um novo olhar sobre o conjunto do DNA humano indica que ao menos 80% de seus 3 bilhões de “letras” químicas têm alguma função.
E sim, isso é surpreendente –porque, desde que o genoma humano foi soletrado pela primeira vez, há 12 anos, a impressão que ficou é que 95% dele era “DNA-lixo”.
Tal tralha evolutiva não era mais usada pelo organismo para a suposta função primordial dos genes: servir de receita para a produção das proteínas que constroem o organismo (veja infográfico abaixo).
Agora, porém, um megaconsórcio de cientistas, o Encode, liderado pelo britânico Ewan Birney, diz que o “lixo” é uma ilusão.
Embora não estejam diretamente ligadas à produção de proteínas, quase todas as áreas do genoma teriam função reguladora ou serviriam de “molde” para a produção de vários tipos de RNA, outra molécula crucial para a vida.
É possível pensar nesses elementos reguladores como uma série de botões de liga e desliga, que atuam sobre o mesmo gene ou sobre genes diferentes. Mas a coisa é ainda mais complicada.
Isso porque eles não regulam apenas dois estados simples de “ligado” e “desligado”. Podem fazer o mesmo gene produzir várias proteínas diferentes, por exemplo. Podem atuar um sobre o outro, potencializando ou diminuindo sua ação.
“Essas diferenças regulatórias talvez sejam as principais responsáveis por aspectos que tanto nos intrigam: existem sequências de DNA que nos fazem ‘humanos’? Quais as alterações genéticas que diferenciam cada um de nós?”, exemplifica Emmanuel Dias-Neto, biólogo molecular do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo.
“Todos esses aspectos, incluindo a patogênese de doenças complexas, que são a imensa maioria, são impactados por esses achados. E as doenças complexas são ainda mais complexas do que imaginávamos”, diz ele.
Para Dias-Neto, os pesquisadores de hoje têm uma vantagem crucial para melhorar ainda mais essa análise: custo. Hoje, soletrar um genoma inteiro custa “só” US$ 1.000.
A revista britânica “Nature”, onde o grosso dos dados está saindo hoje, numa montanha de artigos científicos, fez questão de marcar o feito com pompa. Após a conferência em Londres na qual os resultados foram anunciados, houve até a apresentação de uma “dança do DNA”.